
Vejo um abismo em minha frente... Tormento lapidado em pedras e revestido por espinhos interiores, vindo da minha mais nociva entranha e de uma dolorosa cicatriz jamais revelada, rasgando-me sem pudor até o ultimo fio de esperança, que a essa altura, já se tornou inexistente. Desato os nós que prendem minhas pernas, e com berros interiores tento arrancá-los de minha garganta. Em que direção se vai? Pergunto ao vento, que acaba de bagunçar meus cabelos, mas só ouço minha própria voz em ecos perambulando por um deserto de interrogações. Afinal, o que será? Dói-me exaustivamente cada passo dado sem exatidão, me limitando a uma realidade sobreposta por tons amargurados em degrade. Deixo com que meus dedos incendeiem e assopro instantaneamente uma delicada fumaça em direção ao céu, soltando suspiros abafados – pura distração. As mãos que traziam um afago contido e mantido em sigilo, agora servem apenas como conchas vazias no qual derramo minhas lágrimas, em noites afora quando em um instante inesperado exijo o extremo.
Cenas se repetem com a mesma melodia, uma delas chama minha atenção por toda a simplicidade que a cerca: Através das paredes, o escuro nos confidenciava uma lucidez que simultaneamente penetrava no silêncio de nossos corpos ainda vibrantes, estendidos sobre o vazio atormentado de uma meia lua solitária. Cravo meus dentes em tua pele, enlaço meus braços ao redor dos teus, afogando-me em súplicas subordinadas. Pressinto o que está por vir e me rendo pontualmente. De modo em que me encontro submersa em ti. Afogo-me em tua lucidez e sucessivamente, encontro-me a deriva por estar ausente de mim, contigo. Em meio a todos esses detalhes imperceptíveis, estava o seu perfil azul, no qual tive a exatidão de que me lembraria a cada domingo nublado. Deixo de lado o aprofundamento do meu “eu” tragicamente belo e me atrevo a pronunciar o “nós”. Sim, enfim.
Desperto, olhos pesados e uma ânsia de compaixão não obtida. O silêncio persiste, chegando a ser ensurdecedor. Há um aviso na porta que diz: “Permaneça atento”. Observo a noite tornar-se dia pela moldura da janela, as estrelas se despedem dando lugar a uma plenitude adormecida. Sangro, enfim.