sábado, 19 de junho de 2010

Remeter a um destinatário

“Uma folha em branco, deixando escapar segredos inteiros. Iluminada com a chama presente de uma vela quase a se apagar. Singular. Como uma fotografia em preto e branco, exibindo detalhes que possam evidenciar um possível poema. Sem intenções de querer detê-la com minhas esquecidas promessas – talvez não possa, talvez não queria, talvez. Tudo o que sei, conscientemente, é a primordial necessidade de iniciar. Como quem sussurra ao pé do ouvido pertinentes desejos e faz surgir um arrepio discreto, que nasce com o toque das mãos na nuca e espalha-se por todo o corpo, emitindo mensagens fragmentadas. Apenas leia-me, tudo o que peço. Se por acaso chegou até essas linhas, prossiga... Mesmo que a ti soe apenas como palavras levianas e desesperadas. Mas caso sinta alguma familiaridade irreconhecível, as devore sem porquê. Reconheço: algumas vozes confidenciaram a meus ouvidos que estavas a sorrir, um daqueles risos temperados e agudos, os mesmos que faziam estremecer o chão em que pisávamos. Outras vozes, mais distintas e delicadas, confessaram-me que entrelaçou teus dedos em outros que não eram os meus. Acabaram por fim, recriando em meus pensamentos imagens não vistas. Das quais despertavam em meu ser um ódio ininterrupto e mortífero, que somente um homem que já possuiu em seus braços uma ninfa de ancas juvenis e olhares amedrontados, poderia compreender. Agonizei por dias sem fim diante de um martelar de ponteiros. Era possível me encontrar com as mãos no bolso entre algumas confusões, observando o caos alheio como alguém que espera, ou simplesmente, examina o tempo passar diante dos próprios olhos. E durante algumas noites, abraçava o vazio, que batia em minha porta ao mesmo horário em diferentes trajes e com o mesmo sorriso planejado. Refugiava-me em outros corpos que não eram os teus – sem pudor, sem querer. E por mais belos que fossem, não continham teu cheiro contido nos cabelos, o entrelaçar dos teus braços em conjunto com tuas pernas, e principalmente, sua feminilidade aguçada em sigilo. Os possuía em prantos interiores, sabendo que por mais que os quisesse mantê-los permanentes, um passado ainda continha meus gestos. Não peço perdão, o orgulho constrói em mim barreiras inacessíveis. Não me responda, enquanto o telefone permanecer em silêncio, será tua voz dizendo onde estás. E não volte, sou incapaz de manter minha própria sobrevivência sem que haja dor. Escrevo-te cartas e não as envio: limito-me a uma perpétua confusão. Apago, amasso ou deixo de lado, criando uma nova metáfora de inexistência. E as guardo, junto de tantas outras no fundo de uma gaveta, trancando-as com meu egoísmo. A chama apaga-se e estou de volta a escuridão”.