Em um quarto fechado, questionamentos tornam-se expostos à meia-luz de um antigo abajour posicionado ao lado do telefone, que permanece silencioso desde que os dias tornaram-se chuvosos. Acendo um cigarro, enquanto observo os minutos de um simples relógio, ordeno-me a não desvendar as horas. O único som existente além da hélice quebrada do meu ventilador é o insolente cachorro do vizinho, que ousa latir quando algum carro desliza sobre o asfalto. Logo eu, que por vezes em meio ao silêncio noturno, ouvia atentamente a desajeitada melodia que seus dedos reproduziam no violão. Basta fechar os olhos para que eu possa contemplar teus gestos.
Contenho um suspiro.
Meus lábios vermelhos traduzem-se em dor e suplicam por mais um trago de racionalidade. A garrafa de vinho quase vazia sobre a mesa, completa o transbordamento de ilusões em que encontro-me.
Entrego-me entre incessantes lembranças.
A escuridão que limitava-se ao exterior de minhas janelas, ocupa lentamente o cenário e por fim, invade de modo violento minhas veias com um dose exata de calafrios. Ao tocar o chão gelado com os meus pés descalços, flutuo imperceptivelmente como alguém que dança uma solitária canção. Algum dia, talvez, me escreverás palavras encharcadas de álcool, incertezas e saudades.
Talvez.
Por enquanto, restou-me apenas uma fotografia guardada na carteira, um atormentado vazio existente na cama e o imenso desejo de adormecer novamente entre os seus braços.
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