Chove, consigo ouvir cada gota que toca delicadamente o telhado. Examino tudo ao meu redor. Paredes claras, o cheiro mórbido de cigarro, a chuva que continua a embaçar a janela, constituem um ambiente de um drama casual vivido. Perplexo, sentado á beira da cama com sua carta amassada em minhas mãos de tantas vezes já relida, tantas vezes já mantida distante por tamanha precaução. Cenário restrito apenas a imensidão que separa suas letras de mim. Oh meu bem! Se soubesses o quanto me amargura teu sorriso, essa tua distância cada vez mais presente. Ah se tu soubesses, tu não serias assim. Nesse enlace de formas e sons que prendem o meu fôlego, inibindo minha ofegante respiração, custo a decifrar partículas que se estendem por minha vaga lembrança. Lembro-me de outras tardes... Outras noites, antes e depois. Entretanto, contenho-me, apenas esboço com palavras sinceras todo o meu âmago – vagamente compreendido.
Ouça o silêncio, ouça o que lhe digo sem pronunciar.
Apenas atrevo a dizer-lhe, que foi com certa fúria que cometi atos impensados. Deparava-me com uma inicial ausência, que sucessivamente tornava-se angústia. Perco-me quando não te encontro. Há uma sede insaciável dentro de mim. Sede de vozes e afagos, olhares e abraços. Abraços e abraços... Meus braços flutuam esparsos como se não fizessem parte de mim, tentam com urgência encontrar uma definição – entre os espaços de seu obliquo sorriso. Acabam então se unindo solitários, à distância. Ainda sinto sua face pousando em minhas cálidas mãos, nossos gestos que inicialmente surgiam desajeitados, por fim se uniam, transfigurando uma realidade desejada por ambos. Teus olhos repletos de singularidade vinham em minha direção suplicando por qualquer frase, sem exigir absolutamente nada. Prendia-me a eles por querer-te minha sendo seu, pela eterna vontade de não partir. Tão real tu vieste, tão fiel fizestes de mim uma simples aventura constante. Que maneira há de conter toda essa brusca fugacidade em que me encontro? Incógnitas repetitivas compõem o meu cotidiano desassossegado. Desassossego esse que me dilacera e permite com que me encontre aqui sozinho, parado dentro de uma esfera constituída apenas pelo inalcançável desejo de não sentir.
Continuo a preferir o silêncio.
Ouço vozes, não as respondo. Não quero interrupções nesse instante em que tudo me dói, fere. Encosto no travesseiro, acendo mais um cigarro. A cada trago hesito em lhe procurar, enfim, solto a fumaça em direção ao vazio que me cerca. Desta vez não me contenho, choro em meio a lençóis bagunçados, os mesmos que guardavam teu cheiro. Choro junto à chuva, junto a tuas lembranças, as tuas palavras, o teu corpo inexistente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário